Uma onda de mudanças para as peixeiras com o 'Amdjers de Mar'



Quando foi pedido para que fornecessem uma palavra para descrever o grupo de mulheres ao redor delas, tanto Lucy Duarte quanto Nataly Soares escolheram a mesma palavra: guerreira. E se alguma vez houve um grupo que encarnou essa palavra, é o peixeiras do Sal. Hoje, elas estão compartilhando a experiência delas enquanto terminam uma semana de intenso treinamento destinado a equipá-las com as ferramentas necessárias para uma batalha muito particular.


Antes do verão de 2020, Lucy, Nataly e suas companheiras peixeiras eram uma parte icônica da cena diária no píer de Santa Maria, utilizando baldes e material próprio para separar, cortar e limpar a pesca diária trazida pelos pescadores artesanais locais. Embora isto atraísse a atenção dos turistas que estavam em busca de uma boa fotografia, a falta de espaço, regulamentos de segurança e conhecimento e organização formais deixou as pesqueiras em uma significativa desvantagem social e econômica.


E é então que entra o Projeto Empodera, uma iniciativa implementada pelo Projeto Biodiversidade para desenvolver atividades de capacitação entre as mulheres pescadoras do Sal através de uma série de palestras sobre gestão financeira, segurança alimentar e manejo, e liderança. O objetivo final? O estabelecimento de uma associação dedicada a garantir a sustentabilidade tanto subsistência das pescadoras quanto dos recursos marinhos dos quais elas dependem.


Nataly Soares

Nataly tem trabalhado como processadora e vendedora de pescado nos últimos anos, indo e voltando nessa profissão, e após sua mais recente volta à essa profissão há 8 meses, ela está determinada a encontrar sucesso na indústria apesar muitos desafios presentes nela.


Alguns desses desafios ela gosta, ela disse. A sensação no final de um dia duro de trabalho, onde ela chega em casa com uma dor nas costas depois de ter vendido todo o seu estoque com apenas o suficiente para trazer para casa para o jantar.


Outros desafios são muito mais cansativos e difíceis de enfrentar - como quando os clientes dela cancelam um pedido no último minuto, ao final do dia, quando é quase impossível vender o peixe para outras pessoas, ou o fato de muitos restaurantes comprarem peixe importado ao invés de comprá-lo localmente.


As peixeiras enfrentam obstáculos semelhantes aos das mulheres do setor pesqueiro em todo o mundo. Apesar de possuírem uma representação estimada em 85% nas atividades de processamento da pesca, as pescadoras continuam enfrentando as más condições, a falta de recursos e discriminação de gênero no setor. Em Cabo Verde, a falta de benefícios da previdência social e os parâmetros deficientes das leis trabalhistas para o setor pesqueiro também contribuem para desafios diários das peixeiras.

Lucy Duarte

Lucy Duarte é uma vendedora e pescadora experiente, tendo pescado ao lado de seus pais e irmãos desde a infância. Seu maior obstáculo como pescadora, ela afirmou, tem sido a concepção equivocada de que as mulheres pertencem à terra, não ao barco. O maior desafio como vendedora é a concorrência - de hotéis e empresas locais e entre as próprias mulheres.


Segundo Carla Corsino, coordenadora e facilitadora do Projeto Empodera, as soluções residem não somente em investir no empoderamento econômico das peixeiras, mas também em seu empoderamento social e pessoal.


Para abordar questões práticas como gestão financeira e liderança organizacional, ela teve de criar espaço para explorar os efeitos das dificuldades exclusivas das mulheres - o fardo da expectativa de que elas vão criar uma família, administrar uma casa e sustentá-la sem nenhum apoio significativo dos parceiros. Todas as mulheres desse programa são mais do que capazes, afirmou Carla, é só uma questão de terem acesso às ferramentas para organizar e gerenciar suas próprias condições, formalizar o trabalho já existente para permitir que elas aproveitem ao máximo suas habilidades e papel na indústria pesqueira, e se sintam seguras em seus conhecimentos e experiências.


Para Lucy e Nataly, a participação delas no programa expandiu os horizontes com habilidades ao mesmo tempo práticas e difíceis como gestão financeira, segurança alimentar, liderança, assim como algo muito mais profundo - um senso de poder sobre suas circunstâncias e solidariedade com outras peixeiras para construir um caminho mais brilhante para a profissão delas.


O aspecto desse caminho ainda está para ser visto. Nataly sonha com um futuro no qual os hotéis e restaurantes locais comprem seus peixes localmente, permitindo um fluxo consistente de renda para todo o grupo. Lucy espera um dia abrir seu próprio mercado de peixe e restaurante que sirva o pescado diretamente de seu barco. Agora armadas com novas habilidades e novos uniformes, Lucy, Nataly e todas as "Amdjers de Mar" estão no caminho certo.


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